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“O Corvo”, de Edgar Allan Poe e a versão capa dura da Cia. das Letras

Publicado em 25 abr, 2019

O Corvo – Edgar Allan Poe

ISBN-13: 9788535931686

Ano: 2019 / Páginas: 200

Editora: Companhia das Letras

Classificação: 

 

O poema mais assustador da literatura ocidental e suas traduções. “A morte de uma mulher bela é, sem sombra de dúvida, o tema mais poético do mundo.” Assim Edgar Allan Poe justificaria a gênese de “O corvo”, poema publicado sob pseudônimo originalmente em 1845. Mas o que faz com que esses versos hipnotizantes sobre perda e desejo, escritos de modo tão calculado pelo mestre do terror há quase dois séculos, tenham merecido tantos elogios e tamanha controvérsia?

 

O escritor norte-americano Edgar Allan Poe foi o responsável por transformar todos os corvos do mundo em sinônimos de morte. Se na mitologia grega a ave de penas pretas já significava azar e más notícias, o poema de Poe publicado em 1845 na American Review consagrou o animal como a personificação da morbidez. É este poema e duas de suas principais traduções que encontramos na versão em capa dura lançada pela Companhia das Letras para o clássico da poesia gótica “O Corvo”.

Com organização, posfácios e tradução de Paulo Henrique Britto, a obra é voltada para os fãs da atmosfera sombria de Poe. Além do texto original em inglês, também podemos conferir as versões de Fernando Pessoa, e de Machado de Assis – primeiro a trazer a obra para o Brasil, em 1883.  Nesta edição, Britto analisa as dezoito estrofes e os 108 versos que compõem “The Raven” do jeito mais técnico possível. Confesso que não é simples ou fácil entender e digerir essas páginas, mas fica claro que a construção harmoniosa desse poema arquirromântico foi rigorosamente planejada. Se prepare para conhecer a faceta calculista, lógica e analítica do autor que, basicamente, criou o gênero policial na literatura.

Ao todo são quase 200 páginas de conteúdo – um verdadeiro presente para os leitores que possuem alguma dúvida sobre a história por trás de “O Corvo”. Uma história bem perturbadora, é preciso ressaltar.

Em uma noite fria e chuvosa de dezembro, um homem observa um corvo repousar no umbral de sua janela. Enquanto sofre a perda de sua amada Lenora, ele engata um diálogo com o visitante indesejado que o incomoda com todas as  verdades que não está pronto para encarar. Assim como a chegada do inverno, sombrio e taciturno, a ave representa a derrota e o medo de estar sozinho. O pavor que habita a morte, a escuridão e o adeus – seja ele no vazio ou num grasnar do corvo. Nunca mais? Nunca mais. O desespero do romântico ao saber que as coisas se findam para todo o sempre é de matar. É infelicidade e melancolia.

A grande sacada de “O Corvo” está na sonoridade. Na musicalidade que existe, principalmente em sua versão original. Lê-lo em voz alta é algo prazeroso demais. Há uma sensibilidade e atmosfera única no que Poe fez aqui. Belo e triste.

A ordem dos acontecimentos e toda a sua métrica é destrinchada da forma mais didática possível após a parte inicial do livro. É algo que provavelmente vai exigir muito da maioria das pessoas, mas, sim, esta edição aborda ritmo iâmbico, pés trocaicos e medição de versos. Se você entende o conceito disso, parabéns. Caso não, vai passar uns perrengues durante a leitura. Eu me encaixo nesse último caso, mas sobrevivi. É, no fim das contas, um prato cheio para os estudiosos de versificação.

“Esse esquema formal, tão intrincado quanto rígido, não é gratuito. A repetição sistemática e prolongada de um ritmo muito marcado, sobretudo em se tratando de um metro pouco comum, tem um efeito hipnótico sobre o leitor-ouvinte.”

Entre as duas traduções presentes na edição da Cia. das Letras, a de Fernando Pessoa se aproxima mais da famosa sonoridade do original. E sim, cada tradução feita é completamente diferente da outra. Em português são mais de 20 traduções para “O Corvo”. Uma prova de como sentidos, nuances e o próprio enredo de uma narrativa pode ser alterado a partir da transposição para outro idioma, certo? O primeiro passo aqui, é tentar ler o texto em inglês. Vale o esforço, já que não é tão grande e está tudo nessa edição. Arrisque-se! O encanto virá mais fácil.

 

Dito tudo isso, a cereja do bolo está na diagramação do exemplar. É impossível não se apaixonar pelas ilustrações que acompanham os capítulos, tornando a obra um exemplar único e de colecionador. Sem dúvida um daqueles exemplares que eleva a experiência de leitura a outro patamar. As ilustrações são do Kakofonia.

“O Corvo” ganhou uma série de adaptações nas mais variadas vertentes artísticas. Há filmes, séries, quadrinhos, obras de arte e etc. O filme abaixo é de 2012 e possui direção de James MCTeigue. Vale o play para sentir a atmosfera do autor. 

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