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Quando as estatísticas são desnecessariamente ruins

Publicado em 17 dez, 2017

Seis bilhões de pessoas no mundo inteiro e eu. Observando tudo. Absorvendo boa parte do que vejo. Não vejo um bilhão, nem seis, mas vejo algumas centenas e elas me assustam.

Ela vestia uma farda cheia de bolinhas, dessas que empelotam o tecido quando ele já está velho. O coque estava firma no alto da cabeça, destoando do resto de sua aparência, nada impressionante às seis horas da noite. Ela era mais uma pessoa voltando para casa depois de um dia de trabalho. Não posso nomeá-la e nem quero, mas posso imaginar o que a caixa gigante que ela ostentava próximo as pernas significava.

Era um microondas de pequeno porte. Desses que não custam menos que R$ 300 e salvam nosso dia a dia de marmita e comida requentada. Ela carregava também algumas linhas de expressão no rosto suado. Linhas onde pude ler algo como “o dia foi longo, a vida tem sido difícil, mas eu volto hoje para casa com algo que conquistei sozinha”. Se não sozinha com o apoio de pessoas que a amam. Ela me pareceu ser alguém digna de amor. E quem não, é, certo?

O ônibus que ela iria pegar chegou no ponto. Pela janela pude ver que a catraca era daquelas com design inovador. Projetadas especialmente para nenhum ser minimamente humano conseguir enfrentá-la sem pagar a bendita passagem. Um microondas, mesmo do pequeno, não iria passar por ali. Eu vi ela se dirigir até o motorista e pedir um favor. Vi que ele e o cobrador se dispuseram a ajudá-la. “Claro, deixa o pessoal subir que abro as portas do meio para a senhora entrar”, eu escutei da parede em que estava encostado esperando minha vez de ir para casa.

A moça agradeceu, foi até a porta do meio e esperou. Pacientemente. Eu posso ter imaginado isso, e olha, sou bom em criar teorias mirabolantes, mas vi ela feliz de verdade. O microondas não era apenas um eletrodoméstico de serventia inestimável. Era algo dela, sabe? Eu não entendi quando o motorista arrancou com o ônibus sem ajudá-la e não consegui esconder meu desconforto ao observá-la murchar. É que o segundo motorista que parou e jurou entender sua situação também não abriu porta alguma para ela subir com sua caixa.

Eu vi de perto ela meio que desistir e sentar no meio fio. Vi ela abaixar a cabeça, respirar fundo e trazer para mais perto o microondas que agora já não estava no chão. Estava em seus braços. Ela não foi embora até que um ônibus de catraca normal aparecesse. Ela não brigou, alterou seu tom de voz ou demonstrou raiva com o terceiro motorista. O que eu enxerguei em seus olhos foi decepção mesmo. Conformismo.

Eu devia ter agido, ajudado de alguma forma, mas acho que nem meu pessimismo me prepara para o encontro de pessoas desnecessariamente egoístas. Não sou de rezar, nem de ir à igreja, mas naquele dia fiz algo parecido com o que se faz nesses templos. Desejei de coração que aquela mulher tivesse força suficiente para seguir em frente. E desejei paz. Porque tranquilidade é o que mantém a nossa sanidade. Sem paz um microondas poderia facilmente ter roubado a esperança de um futuro. E cá estou eu imaginando que isso não tenha acontecido. Torcendo, na verdade.

Penso que as condições de trabalho de um motorista e cobrador, atualmente, não são as melhores. Lembro de assaltos, de salários baixos, de estresse. Lembro também que quase tudo é questão de escolha. Existem variantes, mas não consigo justificar a falta de empatia e humanidade. Não há motivo para reprimir o que temos de bom para oferecer. O mínimo às vezes é tudo que alguém precisa. Sei que o problema maior está no sistema, mas nada vai mudá-lo quando o ciclo existir apenas multiplicando comportamentos mesquinhos. Eu não repito o mal que me fizeram. Eu o transformo.

 

Nesse dia, o que se quebrou em mim já estava despedaçado nela.
Eu tenho medo de me tornar aquilo que abomino.
Ela segue firma na missão de não envergar diante do mundo.
Porque o mundo é feito de pessoas desnecessariamente ruins e dessas estatísticas tão ruins eu não quero fazer parte.

Felipe Miranda

Felipe Miranda

Sou redator, produtor de conteúdo, freelancer 24h e quase jornalista. Não consigo ficar quieto. Criei o OMD aos 15 anos e de lá para cá já vivi um mundo inteiro de histórias malucas (sem nem sair de casa).

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