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Quando Witney Houston vira forró

Publicado em 07 ago, 2017

Consegui driblar seis pessoas ainda nos degraus de entrada do ônibus. Passei a catraca, facilmente confundida com um paredão anti-fuga da Al Khaeda e sentei. Numa olhada geral contei mais quatro assentos vagos. Até o meu destino final, pelo menos umas 70 pessoas iam fazer esse mesmo percurso e seguir a viagem a pé. Menção honrosa aos cabras que, desafiando leis pré-definidas pela física, bilogia e o próprio Jack Chan, pularam a catraca de três metros de altura. Elasticidade, eu diria. Quis aplaudir, mas poderia ser um assalto. Melhor não chamar atenção.

Fecho os olhos e tento cochilar. Ventinho bom no rosto… É que sentei perto da janela. A playlist está topada, já decorei a música nova da minha banda favorita e minha mochila é a melhor tradução para “quentinho gostoso”. É que estou abraçado nela e quase deitado no espaço mínimo que paguei pelos consideráveis R$ 3,50. Sério que aceitamos um aumento de passagem sem protestar na Centenário? Da última vez que a juventude alagoana foi às ruas eu lembro bem de ter entoado canções do Legião Urbana por todo o centro de Maceió. Foi inebriante. Até conseguimos adiar aqueles terríveis R$ 0,20 centavos.

Abstraio a situação politico-econômica do país e penso no agora. Situação mais que favorável para uma imersão nos vales profundos do cochilo de lei, até que um carro de som invade pela porta dos fundos.


Um paredão. Pendurado no pescoço de um rapaz, aparentemente, cego. É o que ele defende. Num microfone acoplado a três caixas de som que ele, orgulhosamente, ostenta na cintura. Eu já mencionei a bengala? O que ele disse antes de começar a cantar eu não ouvi direito até que tirei meus fones do ouvido e me entreguei a uma versão muito da original de “I Will Always Love You”, da finada Whitney Houston. Que mulher. E que homem.
Era um forró.
Cantou até que afinado durante uns quatro minutos. Encostado numa pilastra do ônibus ele não se mexeu durante toda a performance. Não entendi como e por quais motivos, porque eu mesmo cheguei a incomodar a moça do meu lado de tanto que balancei os ombros. Sensacional. Ai uma Itaipava gelada ali, viu. Vi gente tirando foto, filmando, jogando umas moedas antes mesmo dele repetir o refrão pela segunda vez. Quase que levanto a mão e pergunto sobre o lançamento daquela versão em alguma plataforma de streaming.Whitney aprovaria a releitura. And I will always love youuuuuu. Quis gritar “puxe o fole fi de rapariga”, mas lembrei que isso só faria sentido na minha infância, lá em Garanhuns, no Pernambuco. Faz muito tempo.

Assim que ele desceu do ônibus, mais dois artistas subiram. Eu tinha adorado o show, mas queria mesmo é voltar a dormir. Não pude. Estados Unidos e Maragogi, duas potências internacionalmente conhecidas e influentes até fora desse plano me impediram. Aliás, representantes de cada lugar. De um lado, Barack Obama versão caeté vendendo amendoim torrado. Uma subcelebridade alagoana. Do outro, um moço oferecendo aquelas bolachas tipo sete capas, doces e salgadas, vindas diretamente do litoral Norte do Estado: as benditas Bolachas Maragogi, aquelas mesmo… Que a gente precisa comer revestido numa manta protetora para não se sujar enquanto come até regojizar e pedir mais e mais e mais.

Quase fizeram um dueto ali, mas negócios são negócios, certo? Venderam separadamente. Entendi muito bem. Dois espetáculos dividindo o mesmo palco. Dois cases de sucesso que qualquer evento de marketing gostaria de apresentar em um telão gigante.Tive sorte. É que eu só queria cochilar antes de chegar ao trabalho, mas Maceió ferve tanto que dificulta esse processo. Ferve no pingo de meio-dia dentro dentro de um ônibus, que, confesso, virou fonte inesgotável de inspiração. Virou uma entidade, fonte de renda e poesia para aqueles que não teimam a entrega. A entrega à poesia gratuita que pode ser o transporte público. Que pode ser o dia-a-dia quando se está disposto.

so I’ll gooo
but I knoooow
I’ll think of you
every step ooof the waaaay

Felipe Miranda

Felipe Miranda

Sou redator, produtor de conteúdo, freelancer 24h e quase jornalista. Não consigo ficar quieto. Criei o OMD aos 15 anos e de lá para cá já vivi um mundo inteiro de histórias malucas (sem nem sair de casa).

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