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[Resenha] Nós – Yevgeny Zamyatin

Publicado em 14 jun, 2017
Nós – Yevgeny Zamyatin
ISBN-10: 8576573113
Ano: 2017
Páginas: 344
Editora: Editora Aleph
Classificação: 
Página do livro no Skoob

Nós é um romance distópico escrito entre 1920 e 1921 pelo escritor russo Yevgeny Zamyatin. A história narra as impressões de um cientista sobre o mundo em que vive, uma sociedade aparentemente perfeita mas opressora, e seus conflitos ao perceber as imperfeições dele, ao travar contato com um grupo opositor que luta contra o “Benfeitor”, regente supremo da nação. O livro só adentrou legalmente a pátria-mãe do autor em 1988, com as políticas de abertura do regime soviético, devido à censura imperante no país.

Resenha:
Por incrível que pareça, a primeira palavra que me vem à mente quando penso nesse livro é “poesia”. Não, não é um livro do gênero, mas a escrita de Zamyatin é tão metafórica e subjetiva em alguns momentos que não consegui desviar da beleza usada por ele para descrever um regime utópico. Uma ditadura que te impõe hora para trabalhar, dormir e transar. Originalmente publicado em 1920, “Nós” foi inspiração declarada para “1984”, de George Orwell, e não-declarada para e “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley. 
O escritor dessa obra é russo e a narrativa é muito influenciada por isso. Pela história soviética e o peso que as origens representam na formação de uma identidade. Para exemplificar, o autor precisou escrever uma carta a Stalin pedindo para sair do país e assim publicar seus livros, que sofreram fortes boicotes e repressões na época. Mas vamos lá.
Após uma guerra bicentenária, os cidadãos não possuem mais nomes. Agora eles são identificados por códigos e números. O Estado Único é o poder que governa a sociedade. Mais que um sistema político, ele é uma religião. Um estilo de vida, se bem que essa denominação pode ser sinônimo de escolha e nessa trama é quase impossível imaginar que a vida funcione e exista fora de tantas regras e normas a serem seguidas. É o que pensam os indivíduos inseridos nesse regime.
O dia foi feito para trabalhar e a noite para dormir. Não descansar a noite é visto como um ato criminoso. É errado. Não existem mais estradas ou pontes. Um gigantesco Muro Verde cerca a região e a vida atrás dele é selvagem. Um mistério que ninguém cultiva a curiosidade de desvendar. Quais seriam as motivações para explorar o desconhecido? Uma espécie de documento determina todos os seus horários, desde refeições às horas pessoais voltadas a leitura, por exemplo. Um exame médico dá origem a um calendário, um cronograma com base em análises hormonais para que você transe com outras pessoas. Não por prazer, mas pelo bem da ciência. Amor? Amor é a lástima que desgraçou a humanidade antes da guerra dos 200 anos. O sexo motivara tragédias e ninguém as quer novamente.
O Estado Único surgira como a grande solução. Como uma celebração do coletivo sobressaindo-se sobre a individualidade. A privacidade já não existe. Não é requisitada ou bem vista. Todos vivem em casas de vidro. Tetos de vidro, paredes de vidro, corações de vidro. Música? A música virou uma operação matemática. Um cálculo complexo produz a mais perfeita sinfonia. O processo criativo é coisa do passado, mais um detalhe sórdido da sociedade que existia antes. É como se a forma como vivêssemos agora fosse absurda e surreal. Errada, tola.
D-503 é o protagonista aqui. Para ele, é inconcebível uma vida mais perfeita que a pregada pelo Benfeitor, o homem por trás do Estado Único. Aqueles que ousam renegá-lo são mortos. Torturados. Mas basta D-503 conhecer alguém desprovido de amarras para algo estalar no fundo de sua consciência. Ao se apaixonar pela rebeldia de I-330 ele se permite descobrir os sonhos e a imaginação. Quer algo mais poderoso que a possibilidade de pensar em mudanças? Em universos paralelos onde escolhas podem alterar a realidade monótona? Ao tomar conhecimento de um movimento revolucionário e um possível golpe, o exemplar cidadão passa a se desesperar. Ao mesmo tempo em que deseja experimentar o ar puro fora do muro, ele teme a segurança daqueles que deixou para trás. Ele teme a chance de a perfeição não existir.
“Nós” é tão forte quanto uma história em que a imaginação é considerada uma cólera pode ser. É tão impactante quanto o fato de o amor ser apenas mais uma ação burocrática em meio aos afazeres do dia-a-dia. A sociedade criada por Zamyatin racionalizou absolutamente tudo para que a perfeição exista. Mas ela não existe e nunca vai acontecer. O que mais assusta durante a leitura é o fato do trabalho ser o elemento que mais tem impacto na vida humana. É como se dormir fosse apenas um detalhe inserido na grande razão existencial que é ser uma máquina dentro do sistema capitalista ou sei lá o quê. E nem preciso comentar que a gente vive numa realidade em que um emprego define quem você é, né? Porque não começarmos a trabalhar aos 16 anos para se aposentar aos 90?
Metafórico, ao ponto de não dizer exatamente algo, mas plantar aquela pulga atrás da orelha, e direto ao ponto de assustar. Como um livro escrito há quase 100 anos pode continuar tão atual? Leitura mais que recomendada.
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