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Quando transbordei a noite inteira

Publicado em 27 abr, 2017

– Aninha. Amor tem validade?

Foi o que eu perguntei à motorista do Uber às quase 7 da manhã, um tanto que alcoolizado no banco de trás do carro. Moro longe, sabe como é, fui o último a ser deixado em casa. Acho que Aninha já não aguentava a minha companhia.

“Eu acho que tem”, foi o que ela me disse com a voz baixa, disferindo um olhar meio envergonhado pelo retrovisor. No fundo ela sabia onde eu queria chegar. E nem era em casa. O que eu não disse pairava no ar. A resposta dela me deixou sem jeito. Meio preocupado, receoso. Meio bêbado com o copo vazio. Eu transbordei a noite toda.


No começo da viagem eu havia deixado escapar uma dúvida. Dessas idiotices que a gente solta e depois se arrepende. Mas de um jeito ou de outro deu certo.

“Aninha, tu é sapatão?”, foi o que soltei quando percebi algo familiar no ar. “Não, mas tenho uma irmã que é”, foi a resposta dela. Ou o que eu lembro dela. Rimos. E acho que foi ali que ganhei a Ana. Ela nem precisou retrucar com uma pergunta pra saber o que eu responderia. Minha indelicadeza, que soa ainda mais desagradável ao escrever isso aqui, foi o que me deu confiança para ir além um pouco depois. Quando estávamos a sós.

– E como a gente sabe se é amor mesmo?

Aninha, com uma sabedoria que admito não possuir parou o carro antes de me responder.

– Moço, quando não cabe no banco de trás é amor. E a gente chegou ao seu destino.

Tonto e cansado eu só consegui dizer “obrigado”, seguido de um “desculpa qualquer coisa”. Havia, enfim acabado. Não somente a viagem, outras coisas também se findaram ali. Queria que ela tivesse me dito isso também. Ana me esperou descer, tocar a campanhia e alguém vir abrir a porta para mim. Ninguém veio, ela foi obrigada a ir embora e eu cochilei na calçada. Dormi pensando que poderia ter recebido uma resposta melhor, mais didática. Às vezes a gente precisa que alguém desenhe o fim da linha. Às vezes voltar atrás é preciso para seguir em frente.

Porra, Aninha.  Eu queria ter dado avaliação máxima para você, umas cinco estrelas no aplicativo, um match de coração, mas nem fui eu quem pedi o Uber.

Felipe Miranda

Felipe Miranda

Sou redator, produtor de conteúdo, freelancer 24h e quase jornalista. Não consigo ficar quieto. Criei o OMD aos 15 anos e de lá para cá já vivi um mundo inteiro de histórias malucas (sem nem sair de casa).

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