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Quando fiz uma tatuagem de marinheiro

Publicado em 02 abr, 2017

Dói. Dói como tantas outras coisas na vida, mas é diferente. É uma dor que você escolheu sentir. Não é sobre um problema, perda ou situação difícil que se enfrenta, é mais sobre liberdade. É você riscando no corpo, seu próprio corpo, algo que significa muito para você ou algo que, depois de tatuado, vai ter um sentido especial por fazer parte de quem você é. Você, você, você. Não consigo escrever sobre isso sem soar individualista. E quando penso em marcas que carrego comigo lembro de duas passagens da minha infância. Lá vou eu voltar ao passado outra vez. Ele que me ensina tanto sempre que preciso usá-lo.

“Rô, vai na cozinha buscar uma colher”, pediu minha mãe, num dia de semana que não lembro qual em meados dos anos 1990. Rô, de Rodolfo, porque meu nome é Rodolfo Felipe, bem no estilo composto de protagonista de novela mexicana mesmo. Talvez essa informação dê a carga de drama que eu precisaria impor aqui porque não tenho detalhes suficientes para isso. A próxima lembrança que me vem desse momento sou eu estendido no chão depois de voltar correndo da cozinha e me estabacar na quina de uma parede. Sangue, sangue, sangue. Para todos os lados.
Na época meu pai não tinha carro, então lembro dele pedindo uma carona do vizinho. Meu velho, fraco para sangue do jeito que é, num ato de coragem me carregou nos braços até o hospital num carro que não era dele. Eu lembro até hoje das picadas da agulha na minha testa. “Não vai doer nada. São formiguinhas dançando Raça Negra na sua cabeça”, eu lembro do doutor me acalmar. Se ele soubesse que naquela época eu não tinha tanto apreço pela genialidade do pagode ele teria evitado esse conforto verbal. Mas eu sobrevivi e com uma marca que me rendeu o apelido de “bruxinho” anos mais tarde. Cada país tem o Harry Potter que merece, certo? A primeira cicatriz que carrego, excluindo as incontáveis que tenho nos joelhos pelas quedas que levava quando pequeno, ensinou-me sobre humildade. Sobre pedir ajuda quando não se sabe o que fazer. 
A segunda lembrança relacionada a marcas que tenho é a prova de que as crianças de hoje são mesmo mais tóxicas que as de antigamente porque na minha época elas já eram bem maliciosas. Vejam só. Aos sete anos eu precisei me afastar das aulas de educação física que aconteciam na piscina porque, num surto de curiosidade avassaladora, toda a minha turma queria descobrir se eu era viado. Detalhe muito importante, claro. E como uma piscina define homossexualidade? Bem, meus queridos colegas tramavam um plano para descobrir se pequeno Felipe possuía uma sinalzinho na banda esquerda da bunda. Segundo eles, estudos científicos retirados de algum livro da segunda série defendiam a teoria de que eu seria uma bela de uma gay se tivesse essa bendita marca no bumbum.
Sim. Eles pretendiam arrancar a minha sunga na piscina enquanto eu aprendia a nadar cachorrinho. Sim. Eu nunca aprendi a nadar e eles nunca tiraram minha sunga. E sim. Eu tenho um sinalzinho na bunda. Coisa boba que duvido muito ter tido influência na minha orientação sexual. Se tudo isso é pesado demais para você, íntimo demais para se ler num post público, preciso te contar algo mais constrangedor ainda: eu tinha sete anos e, por mais que eu saiba que nunca tive dúvidas sobre mim e sobre o que eu queria ser, estamos falando da lástima de uma criança, poxa. Essa marquinha teve uma consequência, né? Cá estou eu mendigando boias sempre que vou para a água.
A segunda cicatriz que carrego não é uma marquinha menor que um cisco de poeira na minha bunda, é a certeza de que deixei de aprender algo por medo dos outros. Porque não fui forte o suficiente num período da minha vida, à despeito de todos os anos em que precisei ter forças e uma cabeça erguida. Eu não culpo o Rô de anos atrás porque tenho orgulho de quem ele foi em outras situações. Eu só precisei contar essa história para dizer o que aprendi com tudo isso: que não vão faltar pessoas querendo te dizer quem você é por algo isolado ou completamente infundado. A única coisa que não pode faltar no meio de carros ensaguentados e piscinas/pessoas assustadoras é coragem. Coragem de nadar e sambar com Raça Negra às vezes.
Eu tatuei um marinheiro pela forte ligação que tenho com o mar. Com a água. Eu não preciso de um velho barbudo pintado na pele para me lembrar disso, mas agora eu sei que tenho um companheiro no meu braço esquerdo que vai estar comigo até o fim da vida. Ele vai estar lá enquanto eu aprendo a nadar em piscinas que cabem monstros piores que crianças da segunda série. Enquanto eu canto a plenos pulmões a discografia do Raça Negra inteira com o meu pai. Ou a do Roberto Carlos, que é mais o perfil dele.
Felipe Miranda

Felipe Miranda

Sou redator, produtor de conteúdo, freelancer 24h e quase jornalista. Não consigo ficar quieto. Criei o OMD aos 15 anos e de lá para cá já vivi um mundo inteiro de histórias malucas (sem nem sair de casa).

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1 Comentário

  • Anônimo
    23 setembro, 2017

    Texto incrível Felipe!!!! Parabéns! Adoro a forma como vc escreve! Tão sutil, leve e ao mesmo tempo profundo!