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[Resenha] Fim – Fernanda Torres

Publicado em 05 ago, 2015

Fim – Fernanda Torres
ISBN-10: 8565765490
Ano: 2014

Páginas: 384
Idioma: português
Editora: Seguinte
Classificação: 
Página do livro no Skoob

O público brasileiro acostumou-se a ver Fernanda Torres no cinema, no teatro ou na televisão .Com ‘Fim’, seu primeiro romance, ela consolida sua transição para o universo das letras. O livro focaliza a história de um grupo de cinco amigos cariocas. Eles rememoram as passagens marcantes de suas vidas – festas, casamentos, separações, manias, inibições, arrependimentos. Álvaro vive sozinho, passa o tempo de médico em médico e não suporta a ex-mulher. Sílvio é um junkie que não larga os excessos de droga e sexo nem na velhice. Ribeiro é um rato de praia atlético que ganhou sobrevida sexual com o Viagra. Neto é o careta da turma, marido fiel até os últimos dias. E Ciro, o Don Juan invejado por todos – mas o primeiro a morrer, abatido por um câncer. 

Resenha: 
O título sugere que o livro seja sobre a única certeza que temos em nossa existência, que é a derradeira-morte, mas Fernanda Torres em seu primeiro romance fala mais sobre a vida mesmo. Tão dolorosa e bonita. A história é dividida em cinco partes, cada uma destinada a um protagonista em especial. Álvaro, Sílvio, Ribeiro, Neto e Ciro são amigos, estão velhos e cada um tem algo de que se arrependa. Seja por ter feito, por não ter feito, por ter feito demais ou de menos. Todos estão morrendo, mortos há muito tempo. Um morreu de câncer, outro de desgosto, um de saudade, outro sozinho e um pela teimosia. A gente acompanha o que mais importou e marcou na trajetória deles até o instante em que dão adeus. A gente, que lê, observa e julga cada erro e acerto que eles cometem, fica assutado porque não há certo ou errado nessa história. Há somente o que poderia ter dado certo, o que poderia ter sido mais errado e tem as escolhas que cada um fez. E isso configura a vida, o estar aqui. Viver e se relacionar não possuem mesmo manual de instrução.

Em Fim, avós odeiam os netos que detestam os pais que querem distancia de animais de estimação e do barulho. O tempo mostra que é possível ser feliz com pouco, com menos do que era estimado por nossos pais, tão preocupados com o nosso futuro, ou com o futuro deles próprios. Se quando jovens a busca pelo par perfeito guia algumas cabeças, a velhice desconstrói esse pensamento com uma solidão bem-vinda. Dá para encontrar o bem-estar naquilo que nunca se imaginou. Numa carreirinha de pó ou na praia, num mergulho no mar ou nos braços de uma gaucha (talvez duas), numa suruba com os melhores amigos ou dividindo uma cama com que se escolheu estar.

O que aqui é aparentemente ruim e condenável não ganha proporções catastróficas ao ponto de um castigo divino se materializar para resolver a situação. Como a gente espera no dia a dia, não é mesmo? E daí se minha esposa me flagrou comendo outra mulher e saí de cena fingindo que não era eu ali? E daí se minha esposa, a quem jurei amor eterno, enlouqueceu por minha causa? E daí que eu nunca a ajudei e fui o responsável por interná-la em uma clínica psiquiátrica? E daí que acabei com a vida dela e, lá no fundo, matei um pouco de mim também?

Talvez a morte de cada um tenha sido uma espécie de acerto de contas, mas isso é uma interpretação que cada leitor deve fazer por conta própria. O que senti foi que a vida corre tão depressa, tão focada em um ponto lá na frente, que muita das merdas que acontecem com a gente, seja culpa nossa ou do papa, passam. Simplesmente passam. Confesso que me incomodou. Essa falta de segurança, sabe? Mas ao mesmo tempo é um retrato tão fiel de tudo que nos cerca. A gente é egoísta mesmo. Inseguro mesmo. Ansioso mesmo. Não dá para acertar sempre. Consertar sempre. Ser legal sempre. Em Fim, o egoismo dos personagens é palpável. Vai além das páginas, te bate no rosto e pede atenção. De todos os protagonistas, apenas um se mantém fiel até seus últimos dias. É como se Fernanda Torres plantasse uma pequena esperança. Um recado do tipo, “ei, ainda existe alguém”. Não que ela demonstre em algum momento que pular a cerca ou negar ajuda a um amigo em estado terminal seja algo errado. Fernanda apenas narra consciências e a falta delas. As tragédias que formam humanos. Humanos de todo tipo.

A narrativa, ágil e feroz, é feita em primeira pessoa pelos cinco principais e em terceira pelos personagens secundários, que são muitos e somam bastante na história. Um deles é Padre Graça, que perdeu o prazer em realizar velórios e sepultar os mortos. Se já não há fé em vida, avalie na morte, num cubículo sem ar condicionado, com todos vestidos de preto, suando e com fome, vomitando no morto picuinhas abafadas de oitenta anos atrás. Álvaro é o primeiro a contar sua versão sobre o que viveu. Ele abre o livro para os outros seguirem externando suas aventuras no Rio de Janeiro das décadas de 60, 70 e 80. Está explicado a libertinagem presente no livro, a época onde tudo se passa ajuda. Mulheres e sexo, muito sexo, rendem as problemáticas. Tudo gira em torno disso. Viagra, fidelidade, filhos, divórcios, sonhos. As esposas também narram e a gente tem uma visão ampla de tudo. Ninguém é santo nesse rio.

No final das contas o livro é um recorte cruel do que pode ser a vida de qualquer um. Apesar de apresentarem semelhanças, a estrada de Ciro, Neto, Álvaro, Ribeiro e Sílvio foram diferentes. A amizade deles proporcionou muita aprendizagem compartilhada, mas é aquela coisa, as escolhas, mesmo que difíceis, mesmo que afastem, são mais que necessárias. São nossas. Só nossas. A gente tem que escolher para onde vai, com quem vai, como dá para chegar lá. Apesar de comerem meio mundo durante a vida, senti que todos foram meio solitários. É um reflexo, não? Outra escolha. Raros são os reais afetos. Que aconchegam a alma.

WalmartBR

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